Queridxs leitorxs, acredito que o título desperte curiosidade a respeito do conteúdo, podem ficar tranquilos que se algum dia rolar um nu por aqui, será artístico e será a coisa mais linda que seus olhos sejam capazes de contemplar.
Bom, vou iniciar minha trajetória por esse maravilhoso mundo das hastags e das ondas eletromagnéticas que podem transmitir histórias reais e vivências de muito amor também. agora chega de enrolação e vamos ao que interessa!!!!
Vou me apresentar. Me chamo Andreza Anjos, nos últimos meses adotei Andreza Benguela, Benguela porque sim, porque já sei que minhas raízes também são do povo Benguela que veio para o brasil durante a escravização do povo africano. tenho 24 anos e sou mãe, também trabalho e estudo, não diferente da maioria das mulheres, enfrento uma tripla jornada diária. Bom, vou partilhar um pouco hoje sobre uma nudez de vida, quero aqui relatar meu processo de violência obstétrica.
Por não contar com uma assistência médica, recorri ao sistema de saúde pública que há muito se encontra abandonado, durante minha gestação, meu pré natal começou tarde, mas isso será outro escrito, no entanto, já percebi algo errado desde o primeiro pré natal, o atendimento não me proporcionou o conforto que necessitava, mas estava tão aflita com a situação de ser mãe num momento tão tenso de minha vida encampando uma trajetória acadêmica e resolvendo demandas espirituais, além de um relacionamento abusivo e violento, que deixei passar como se fosse muito normal, mas não era. A violência obstétrica começou quando eu não tive acesso a ultrassonografia nem aos exames simples da gravidez, se quis fazer tive que pagar com meus recursos já escassos e mal administrados com o cotidiano perverso que sobrou pra gente como nós. A enfermeira responsável pelo PSF- posto de saúde da família, me atendeu bem, fez os testes rápidos e pediu os exames além de receitar o básico que é sulfato de ferro, não tinha disponibilidade pra exame e não tinha medicamento ofertado, por sorte, estava com um trabalho precário, mas me proporcionou fazer os exames e comprar o medicamento. Daí até eu parir, eram consultas pra pesar, medir a barriga, as vezes nem escutar o bebê porque não tinha um aparelho e quando tinha aferir pressão arterial. Eu sabia que precisava de ajuda psicológica, estava inconformada com o meu estado e já tinha passado muitas dificuldades em lidar com a situação, porem, meu pedido não foi aceito porque a demanda da cidade era grande e não tinha vaga, respirei fundo e busquei via universidade, obtive sucesso. Mas não parou por aí, eu recebi a caderneta de gestante, li toda com muita atenção e vi a porção de coisas que deveria acessar assim que a unidade de saúde tivesse ciência do meu estado, enfim, busquei as tais consultas de assistência odontológica (os problemas da saúde bucal da mãe geram graves problemas ao feto, inclusive a morte) mais uma vez a cara na porta, quando não estava sem dentista, estava com algum problema no consultório e eu acabei a gestação sem ao menos uma aplicação de flúor ou mesmo uma orientação de escovação... vamos dar uma pausa nesse cérebro lindo e rosinha aí atrás da tela rsrsrsrsrs, quero dizer que esse texto serve para as mães e não mães também.
Essa semana fico sabendo que um certo desgoverno retirou o termo violência obstétrica, por isso resolvi que minha palavra seria sobre isso, porque eu vivi isso, isso existe e é um problema muito grave no país.
Seguindo, ao todo eu gastei 2600 reais em exames pré natal, isso porque teoricamente eu era assistida pelo SUS, aí pergunto como algúem que não tem renda alguma pode se cuidar e cuidar de sua cria durante a gestação? NÃO CUIDA, CONTA COM A SORTE. mas não é de sorte que são feitos direitos, também conheço o ECA e sei que o acompanhamento pré natal está previsto lá também e é direito assegurado pela constituição de 88.
Mas Andreza, só por isso?
lamento dizer que não é só isso, situações vexatórias e constrangedoras não faltaram, houve uma violência de gênero mas que cabe outro texto pra falar, então foco.
Em resumo foi isso tudo na gravidez, mas o barril triplicou no parto.
Vamos a parte mais dolorosa... Assim que comecei a sentir contrações, comecei a fazer exercícios em casa pra ajudar na dilatação do colo, a cada 15 min eu ia no banheiro pra ver se o tampão tinha deslocado, mas nada acontecia. passei a cronometrar o tempo das contrações que começaram por voltas das 21hr, chegando ás 01hr ui pra emergência do município, a cidade não tem maternidade mas tem a famosa regulação, então fui. Quem estava no plantão foi um estagiário, não por ser estagiário mas um sujeito grosseiro e incompetente, foi fazer o famoso toque, foi o primeiro tiro na alma, ele me dilacerou e disse que eu estava com 10 cm de dilatação, eu quase saí andando pra ir parir sozinha, porque com essa dilatação meu filho estaria em meus braços, por sorte, tinha uma enfermeira muito atenciosa que veio a mim e conversou um pouco e me pediu pra fazer outro toque, confiei nela e fizemos, já não senti desconforto e ela disse: mãe, ta tudo bem, dá tempo chegar no hospital, vc ta com 3 cm, vou te encaminhar, pode andar pelo corredor que ajuda. Assim fiz, andei quando podia e quando as contrações retornavam eu sentava, me agachava e assim foi até ser transferida, eis mais um problema, quem me acompanhou foi uma técnica, pq o estagiário não sabia sobre nada de parturiente e a enfermeira se deixasse o plantão pra me acompanhar ia virar uma zona o lugar.
quando chegamos na maternidade, me identifiquei e fui encaminhada pra sala de pré parto, fui bem atendida, mas deu pra ouvir a fúria da plantonista, ela bradava ao celular " nós vamos atender pela mãe e pelo bebê, mas por que essa cidade não manda um enfermeiro? técnico não pode acompanhar ninguém, que seja a última vez ou eu vou ter que denunciar essa secretaria"
fiquei por muito tempo sozinha na sala de pré parto, me deram alguma droga sem me perguntar se eu queria, acredito que foi oxitocina, me puseram soro na veia e me largaram lá, as contrações aumentavam muito e com menos tempo, as vezes eu chamava enfermeira, uma me orientou tomar banho e sentar na famosa bola, assim fiz, mas o banho foi difícil porque a água era fria. Depois de um tempo ela voltou, olhou o soro e injetou mais droga nele, fez o toque com vaselina e tudo e disse que se eu sentisse vontade de defecar que chamasse ela e não saísse da cama, sei que dormi um sono bem leve e prazeroso, acredito que foi o melhor momento antes do parto, quando acordei a enfermeira colocando mais soro e chamou o medico, ele veio fazendo graças e fez mais um toque, apesar do cuidado com a vaselina, eu estava sentindo muito desconforto e pedi pra não fazer mais, o que foi negado, ele disse que eu só ia parir mais tarde, isso eram 4:30hr. dormi de novo, quando acordei estava com muita contração, sentei na bola novamente e treinei a respiração, voltei pra cama e fiquei vendo quase uma vida passar pela janela literalmente, chegavam muitas mulheres indo direto pra sala de parto e eu nada de parir, comecei a pedir yemanja que adiantasse logo minha hora porque estava muito cansada e deprimida porque não deixaram ninguém me acompanhar, o que é um direito meu, minha tia ficou do lado de fora esperando a noite toda e noticias minha e do bebe só por telefone, foi um terror.
assim foi até o meio dia, meu tampão saiu e a bolsa finalmente estourou, comecei a fazer foça sozinha e passava a mão pra sentir a cabeça do meu pequeno, mas nada, depois de muito chamei a enfermeira, que me levou pro banheiro pra mais um banho e disse que agora ia nascer, fiquei feliz e fiz tudo na maior pressa pra ver meu menino logo. ela me levou pra sala de parto e lá começou mais uma sessão de tortura. assim que me deitou na cama ela arreganhou minha perna a uma altura que nem imaginei poder alcançar, disse que não estava bom e apoiei meu pé de um jeito que estava segura, isso ela permitiu, na verdade as duas, na sala de parto tinham duas, o médico só assistiu.
Deram anestesia local e fizeram a desgraça do corte, qual dificultou minha vida sexual e coisas cotidianas como sentar a vontade e andar de bicicleta por quase 2 anos. elas me instruíram na respiração e como fazer a tal força pro bebê sair. me lembro que fechei os olhos por 5 segundo e quando abri a enfermeira estava apoiada em cima de minha barriga empurrando, esbugalhei os olhos e ela se levantou, mandou eu fazer mais força e uma delas puxando o bebê pela cabeça, me esforcei o máximo que pude pra terminar a tortura logo e salvar meu filho daquelas mãos de sangue mórbido, enfim nasceu, logo começaram a me costurar, levou tanto tempo que perguntei quantos seriam, ela riu e disse que eram tanto pontos que não dava pra contar, de fato foram tantos que na primeira relação que tive depois do parto, aprecia que estava virgem de novo e isso foi triste demais.
colocaram o bebe em cima de mim, mas antes que eu pudesse dar de mamar já me tomavam meu filho pra tentar fazer ele chorar, ele não chorou, o meu conforto é que elas só chamavam o nome dele pra ele reagir de alguma forma mas não bateram, ele me olhava, piscava e fechava o olho de novo, elas cortaram o cordão, colocaram a pulseira e foram pesar, levaram meu filho pra encher daquelas merdas de alumínio e me puseram em uma cadeira de rodas pra mais um banho. Depois disso, até hoje sinto os efeitos das violências, por muito amor a mim mesma e a minha cria, isso não interfere na nossa relação, mas nunca para de doer.
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